segunda-feira, 6 de maio de 2013

Lembrança

Giovanna Rocha tem 23 anos. Quando pequena, não suportava a ideia de ser infantilizada. Queria ser levada a sério.
 
            - Vai lá brincar! - Ela me dizia.
            - Não quero! - Eu respondia.
            Estava no jardim do prédio em que eu morava. Ventava muito. As crianças, mais velhas, brincavam e eu estava sentada no banco, de óculos escuros. Tinha uns dois anos, eu acho.
            - Mas vai lá brincar! - Ela insistia.
            - Não quero! - Respondia.
            “Mas que saco!” - Pensava - “Por que eu tenho que brincar? Só porque sou criança? Não quero brincaaaarrrr!!!”
            - Então eu vou trazer a Carol pra brincar com vc...
            “O que? Ela não entendeu?? Mas será possível? Quem era essa tal Carol? Por certo era mais uma daquelas meninas chatas que ficavam cantando aquelas musiquinhas que todo mundo fala que é de criança e por isso as crianças têm que gostar! Igual quando a minha mãe queria que eu ficasse com aqueles monitores chatos de hotel...Ahhh!!! Eu DETESTO essas musiquinhas! E já não quero nem ver essa tal Carol! Deixa só ela vir...vai ficar falando com a parede!”
            Ela traz a Carol - magrela, cabelo chanel e óculos fundo de garrafa. A menina se senta do outro lado do banco em que eu estava. Fiquei olhando pro céu (apesar de eu não ter certeza se alguém percebeu, porque eu estava de óculos escuros).
- Então, Carol, essa é a Gigi. Você não vai chamar ela pra brincar?
O silêncio se fez. Alguém tirou uma foto.





Adaptação

Foto enviada pela professora - primeiras interações da Laura

Primeiro dia na creche. Coincidia com o primeiro dia de aula na faculdade, após as férias de fim de ano. Minha filha Laura tem apenas 6 meses de vida e eu nunca fiquei longe dela, nem por um minuto... A sensação de entregá-la a pessoas desconhecidas, num lugar estranho aos meus olhos é a mesma de arrancarem do meu corpo o meu umbigo, meu ponto de equilíbrio. Saí da creche cambaleando...
Quando voltei para visitá-la, na hora da amamentação, a professora me diz:
- Ela não chorou, mas ficou quietinha, na dela, não interagiu, não quis brinquedos...
E foi assim por uns 20 dias. Todo dia a mesma notícia. Eu lembrava de como a Laura era feliz em casa, como sorria, gargalhava, como interagia comigo. E então eu imaginava ela triste, apática. A professora dizia que ela recusava os brinquedos. O que fazer?
Minha decisão: Trancar o semestre na faculdade. Comuniquei isso ao meu esposo em meio a lágrimas na madrugada de um domingo pra segunda. Disse a ele:
- A partir de amanhã eu não vou mais pra aula. Vou trancar esse semestre.
Na manhã seguinte entreguei a Laura pra professora e fui trabalhar normalmente. Quando chegou a hora de amamentar, a professora me disse:
- Ewelyn, hoje a Laura sorriu pela primeira vez! Eu até tirei uma foto pra te mostrar e deixar você mais tranquila.
Desde então a Laura brinca, sorri e se diverte na creche. Todos ficam impressionados com a agilildade dela, com sua flexibilidade. Está agora com 1 ano e 8 meses, e a nova descoberta é a de que pode se pendurar nas coisas... fica testando sua força em tudo o que pode. Na creche tem aquelas armações de balanço, mas os balanços foram desativados. Laura adora que eu erga -a e a coloque no ponto mais alto, pra se pendurar e balançar o seu corpo....
Eu , como mãe, as vezes fico aflita, pensando que pode se machucar. Mas como educadora,  deixo a Laura se descobrir, perceber suas capacidades, conhecer as funções das partes que compõem o seu corpo. Procuro só interferir em caso de extremo perigo.
Ser mãe já é maravilhoso. Mas ser mãe e ser educadora, conhecedora dos estágios de desenvolvimento de uma criança,e poder acompanhar as descobertas e o crescimento de alguém é uma experiência sublime.
Ewelyn Richieri