Durante
a minha infância, muitos cheiros e sensações me marcaram. Uns mais, outros
menos. Mas ainda assim, cada um me marcou de uma forma especial.
Dentre
todos os cheiros, um cheiro que me marca muito até hoje, é o cheiro de manga.
Quando criança, meus tios trabalhavam e moravam em uma fazenda na cidade de
Duartina, onde eu morava na época. Eu sempre ia na fazenda, ou com o meu tio,
que quando ia na cidade resolver alguma coisa, sempre passava em casa para me
levar, ou com as minhas primas, que moravam na cidade, de bicicleta.
Quando
ia cedinho, encontrava minha tia na cozinha da “sede” fazendo café. Um cheiro
com um toque especial para mim até hoje (é como descubro até hoje quando o meu
pai já foi trabalhar, se tem cheiro de café na casa, meu pai já foi. Se não
tem, ou ele perdeu hora, ou vai sair depois de mim). Depois de tomar café da
manhã, eu, minhas primas e as crianças da fazenda, descíamos pro manguezal que
tinha atrás da sede da fazenda. Lá tinham mangueiras de todos os tipos:
manda-espada, manga-coquinho, manga-adem e várias outras que eu nem sei o nome,
rs. Passávamos sempre um bom tempo brincando ali, no meio das mangueiras. O
cheiro me marca muito, pois ali, o cheiro de manga era muito forte. As mangas
maduras caíam no chão, e, quando o gado estava solto, passava por ali,
esmagando as mangas, ou até mesmo mordendo-as, o que deixava o cheiro mais
forte.
Uma
sensação e textura que me marcou muito foi a sensação de uma queda de
bicicleta. Voltando da fazenda, o freio da minha bicicleta falhou, e eu caí no
asfalto. Ralei muito o meu cotovelo direito, e um pouco dos meus dois joelhos.
A marca do ralado no cotovelo, tenho até hoje, mas eu não preciso dela para me
lembrar da queda. Me lembro como se tivesse acabado de acontecer. Era um fim de
tarde. Depois de chegar da escola, minha prima me chamou para irmos na fazenda,
pois ela precisava que minha tia assinasse uma autorização para ela. Era horário
de verão, então minha mãe deixou. Estávamos voltando por volta de umas 18:00.
Era uma descida, e eu ainda me lembro do vento gostoso que batia no meu rosto e
balançava os meus cabelos. De repente, a bicicleta começou a ficar muito veloz,
e eu tentei frear, em vão, pois os freios falharam, a bicicleta começou a
zigue-zaguear na pista, e eu perdi o controle. Ela tombou pro lado, e eu caí.
Ainda me lembro da dor que queimava no meu cotovelo, do cheiro de asfalto e
sangue. Ainda me lembro que eu não sabia o que eu fazia, se ria ou se chorava.
A minha prima, é claro, gargalhava. Eu, fazia as duas coisas ao mesmo tempo,
ria e chorava. Ainda lembro do som da gargalhada da minha prima, e ainda me
lembro da cara de desespero da minha mãe quando me viu toda suja de sangue. A
queda me fez até bem, pois ela mandou o meu pai trocar a minha bicicleta. Era
uma Caloi de segunda mão, que nem trocava de marcha. Ela mandou meu pai comprar
uma novinha na loja com 18 marchas.