Nossas memórias, nossas vergonhas...
Caue Prado tem 24 anos. Nasceu em Campinas e desde os quatro anos se dedicou ao karatê.
Aos onze anos de idade, na faixa
marrom do karatê, estava classificado pela primeira vez para disputar o
Campeonato Brasileiro, que seria realizado no Rio de Janeiro... A classificação
havia sido, modestamente, heroica, pois lutei a final do Paulista com dois
dedos quebrados da mão direita, fratura que conquistei jogando bola e que me
renderam mais dores nos ouvidos do que na mão, ouvindo meu pai e meu Sensei
ralhando sobre a irresponsabilidade que havido sido ir jogar futebol nas
vésperas da final do Estadual.
Mas
lá estava eu, viajando de carro para o Rio com meu pai e meu treinador um dia
antes da competição. Fomos sozinhos, pois para irmos com a Seleção Paulista
seria mais caro, porém, não tínhamos o endereço do ginásio e nem reserva em
hotel. Então, ficamos "dando uma volta" pela Linha Vermelha, sem
saber do que se tratava. Acabamos, depois de muito andar e muitas informações
desconexas, localizando o ginásio. Para mim tudo foi muito chato pois estava
acostumado com a bagunça feita no ônibus quando ia a academia toda viajar para
disputar campeonato e dessa vez só eu havia me classificado e, por isso, estava
"sozinho".
Às
dez da noite depois da pesagem e do cadastramento saímos do ginásio e fomos
procurar um lugar para passar a noite. Poucas ruas distante do ginásio
encontramos o Agadir Hotel, cheio de neons e luzes brilhantes. Meu pai pensou
que seria muito caro e meu treinador que estaria lotado, considerando que pela
proximidade, seria a primeira opção de todos os outros atletas e acompanhantes.
Ainda assim, cansados e com fome, decidiram verificar. Descobrimos que havia
vagas, mas também que o Agadir Hotel era um motel e não um hotel, mas que
estava "disfarçado" por estar no centro e que não poderia aceitar
menores de idade. Ninguém se mostrou muito disposto a me explicar o que era um
motel, ou por que meu treinador ficou irritado quando o rapaz do portão
perguntou se iríamos ficar todos no mesmo quarto, após ter aceitado que
passássemos a noite lá depois de meu pai ter explicado a situação.
Achei
o máximo um quarto com tantos espelhos e com controle de ar/TV e rádio
acoplados em botões na parede. E ainda nos intervalos da Globo apareciam
propagandas da Telemar 31, ao invés da Embratel 21. Meu pai pediu a comida, foi
tomar banho e eu tive a infeliz ideia de "dar uma olhada" no que
estava passando nos outros canais. Foi direto do Serginho Groisman para algo
que eu nunca tinha visto, mas de alguma maneira sabia que não deveria estar
vendo e mudei rapidamente com medo de que meu pai ouvisse o que eu havia visto.
Quando meu pai saiu do banho, a comida chegou e eu estava deitado na cama
olhando fixamente para a TV desligada. Por sorte, meu pai nunca foi muito
atento a essas coisas e também não me questionou o porquê de eu não ter olhado
para ele nem por um segundo enquanto jantávamos. Tomei banho e fomos dormir.
Estava frio, mas hoje compreendo porque meu pai não quis ligar na recepção e
pedir um cobertor.
Acordamos
bem cedo e eu estava angustiado em pensar no que poderia acontecer se alguém
resolvesse ligar a TV por alguma razão. Na saída, encontramos meu treinador que
comentou nunca antes ter ido a um motel sozinho e ainda hoje me sinto
constrangido ao lembrar no que eu disse em seguida:
-
Você não veio sozinho. Você veio com a gente!
Não
entendi porque me ignoraram, assim como não entendi porque naquele tal motel
não tinha um lugar para os hóspedes tomarem café.
No
fim, fui Campeão Brasileiro de karatê pela primeira vez, mas isso não foi a
parte mais entusiasmante da minha viagem para o Rio de Janeiro.
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