Me
lembro bem como se fosse ontem. Estávamos na fazenda onde os meus tios
trabalhavam e moravam, nos balanços pendurados nos pés de manga. Os adultos
discutiam o casamento da minha prima Sane. Eu tinha 6 anos. O meu sonho era ser
“madrinha de aliança”, e esperava muito que ela me chamasse, mas, na verdade,
ela acabou por chamar uma sobrinha do noivo dela.
-
Que absurdo! – eu pensava – tem que ser parente dela para ser madrinha de
aliança, ela sequer é alguma coisa da minha prima. Não me chamar nem pra ser dama
de honra? Isso é mais absurdo ainda.
Confesso
que fiquei com o meu orgulho ferido, mas não queria admitir para ninguém, então
eu dizia, em alto e bom tom:
-
Ainda bem que a Sane chamou a Jéssica pra ser madrinha de aliança e nem me
chamou para ser daminha de honra. É muito cansativo e muito chato ficar de pé
lá na frente. Dói as pernas. No casamento da Sil, eu queria era ficar sentada
assistindo.
(Minha
prima Sil havia se casado 2 anos antes, e eu tinha sido sua dama de honra.)
Todos
os adultos davam muitas risadas, e eu não entendia o porque. Mal sabia eu que
eles sabiam que eu estava com o orgulho ferido e não queria admitir.
Hoje,
passados praticamente 20 anos, vejo esse “orgulho ferido não-admitido” nos meus
alunos constantemente:
Um
dia na escola, estávamos com um grupo grande de crianças, era reunião de pais,
e as professoras estavam na reunião, enquanto eu e as outras auxiliares ficamos
com as crianças do período integral.
-
Meninas, o que acha de nos dividirmos? Temos 24 crianças para 4 auxiliares.
Levamos 12 na areia azul com 2 auxiliares e outras 12 para o parque com as
outras 2 auxiliares. Ficamos meia hora e depois invertemos. – sugeri para as
outras auxiliares.
-
Boa idéia Vanessa.
Fizemos
as divisões dos grupos e fui com as minhas primeiras 12 crianças para a areia
azul.
-
Tirando o sapato, e colocando arrumadinho do lado de fora. Quem estiver de
tênis, coloca a meia dentro do sapato. – falei para o meu grupo.
-
Eu não quero tirar o sapato, vou entrar assim mesmo. – disse Jorge.
-
Não, você tem que tirar o sapato igual a todos, senão não entra. – respondi.
-
Então, não quero ir na areia, vou no parque.
-
Não, você vai na areia agora, pois o seu grupo está na areia, e se você não
entrar na areia agora, você não vai no parque depois.
-
Deixa, eu nem queria ir no parque e nem na areia mesmo. Eu queria mesmo era
ficar sentado só olhando todo mundo brincar.
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