segunda-feira, 10 de junho de 2013

Orgulho ferido

Me lembro bem como se fosse ontem. Estávamos na fazenda onde os meus tios trabalhavam e moravam, nos balanços pendurados nos pés de manga. Os adultos discutiam o casamento da minha prima Sane. Eu tinha 6 anos. O meu sonho era ser “madrinha de aliança”, e esperava muito que ela me chamasse, mas, na verdade, ela acabou por chamar uma sobrinha do noivo dela.
- Que absurdo! – eu pensava – tem que ser parente dela para ser madrinha de aliança, ela sequer é alguma coisa da minha prima. Não me chamar nem pra ser dama de honra? Isso é mais absurdo ainda.
Confesso que fiquei com o meu orgulho ferido, mas não queria admitir para ninguém, então eu dizia, em alto e bom tom:
- Ainda bem que a Sane chamou a Jéssica pra ser madrinha de aliança e nem me chamou para ser daminha de honra. É muito cansativo e muito chato ficar de pé lá na frente. Dói as pernas. No casamento da Sil, eu queria era ficar sentada assistindo.
(Minha prima Sil havia se casado 2 anos antes, e eu tinha sido sua dama de honra.)
Todos os adultos davam muitas risadas, e eu não entendia o porque. Mal sabia eu que eles sabiam que eu estava com o orgulho ferido e não queria admitir.
Hoje, passados praticamente 20 anos, vejo esse “orgulho ferido não-admitido” nos meus alunos constantemente:
Um dia na escola, estávamos com um grupo grande de crianças, era reunião de pais, e as professoras estavam na reunião, enquanto eu e as outras auxiliares ficamos com as crianças do período integral.
- Meninas, o que acha de nos dividirmos? Temos 24 crianças para 4 auxiliares. Levamos 12 na areia azul com 2 auxiliares e outras 12 para o parque com as outras 2 auxiliares. Ficamos meia hora e depois invertemos. – sugeri para as outras auxiliares.
- Boa idéia Vanessa.
Fizemos as divisões dos grupos e fui com as minhas primeiras 12 crianças para a areia azul.
- Tirando o sapato, e colocando arrumadinho do lado de fora. Quem estiver de tênis, coloca a meia dentro do sapato. – falei para o meu grupo.
- Eu não quero tirar o sapato, vou entrar assim mesmo. – disse Jorge.
- Não, você tem que tirar o sapato igual a todos, senão não entra. – respondi.
- Então, não quero ir na areia, vou no parque.
- Não, você vai na areia agora, pois o seu grupo está na areia, e se você não entrar na areia agora, você não vai no parque depois.

- Deixa, eu nem queria ir no parque e nem na areia mesmo. Eu queria mesmo era ficar sentado só olhando todo mundo brincar.

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