segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cheiros e sensações

Durante a minha infância, muitos cheiros e sensações me marcaram. Uns mais, outros menos. Mas ainda assim, cada um me marcou de uma forma especial.
Dentre todos os cheiros, um cheiro que me marca muito até hoje, é o cheiro de manga. Quando criança, meus tios trabalhavam e moravam em uma fazenda na cidade de Duartina, onde eu morava na época. Eu sempre ia na fazenda, ou com o meu tio, que quando ia na cidade resolver alguma coisa, sempre passava em casa para me levar, ou com as minhas primas, que moravam na cidade, de bicicleta.
Quando ia cedinho, encontrava minha tia na cozinha da “sede” fazendo café. Um cheiro com um toque especial para mim até hoje (é como descubro até hoje quando o meu pai já foi trabalhar, se tem cheiro de café na casa, meu pai já foi. Se não tem, ou ele perdeu hora, ou vai sair depois de mim). Depois de tomar café da manhã, eu, minhas primas e as crianças da fazenda, descíamos pro manguezal que tinha atrás da sede da fazenda. Lá tinham mangueiras de todos os tipos: manda-espada, manga-coquinho, manga-adem e várias outras que eu nem sei o nome, rs. Passávamos sempre um bom tempo brincando ali, no meio das mangueiras. O cheiro me marca muito, pois ali, o cheiro de manga era muito forte. As mangas maduras caíam no chão, e, quando o gado estava solto, passava por ali, esmagando as mangas, ou até mesmo mordendo-as, o que deixava o cheiro mais forte.

Uma sensação e textura que me marcou muito foi a sensação de uma queda de bicicleta. Voltando da fazenda, o freio da minha bicicleta falhou, e eu caí no asfalto. Ralei muito o meu cotovelo direito, e um pouco dos meus dois joelhos. A marca do ralado no cotovelo, tenho até hoje, mas eu não preciso dela para me lembrar da queda. Me lembro como se tivesse acabado de acontecer. Era um fim de tarde. Depois de chegar da escola, minha prima me chamou para irmos na fazenda, pois ela precisava que minha tia assinasse uma autorização para ela. Era horário de verão, então minha mãe deixou. Estávamos voltando por volta de umas 18:00. Era uma descida, e eu ainda me lembro do vento gostoso que batia no meu rosto e balançava os meus cabelos. De repente, a bicicleta começou a ficar muito veloz, e eu tentei frear, em vão, pois os freios falharam, a bicicleta começou a zigue-zaguear na pista, e eu perdi o controle. Ela tombou pro lado, e eu caí. Ainda me lembro da dor que queimava no meu cotovelo, do cheiro de asfalto e sangue. Ainda me lembro que eu não sabia o que eu fazia, se ria ou se chorava. A minha prima, é claro, gargalhava. Eu, fazia as duas coisas ao mesmo tempo, ria e chorava. Ainda lembro do som da gargalhada da minha prima, e ainda me lembro da cara de desespero da minha mãe quando me viu toda suja de sangue. A queda me fez até bem, pois ela mandou o meu pai trocar a minha bicicleta. Era uma Caloi de segunda mão, que nem trocava de marcha. Ela mandou meu pai comprar uma novinha na loja com 18 marchas.

Orgulho ferido

Me lembro bem como se fosse ontem. Estávamos na fazenda onde os meus tios trabalhavam e moravam, nos balanços pendurados nos pés de manga. Os adultos discutiam o casamento da minha prima Sane. Eu tinha 6 anos. O meu sonho era ser “madrinha de aliança”, e esperava muito que ela me chamasse, mas, na verdade, ela acabou por chamar uma sobrinha do noivo dela.
- Que absurdo! – eu pensava – tem que ser parente dela para ser madrinha de aliança, ela sequer é alguma coisa da minha prima. Não me chamar nem pra ser dama de honra? Isso é mais absurdo ainda.
Confesso que fiquei com o meu orgulho ferido, mas não queria admitir para ninguém, então eu dizia, em alto e bom tom:
- Ainda bem que a Sane chamou a Jéssica pra ser madrinha de aliança e nem me chamou para ser daminha de honra. É muito cansativo e muito chato ficar de pé lá na frente. Dói as pernas. No casamento da Sil, eu queria era ficar sentada assistindo.
(Minha prima Sil havia se casado 2 anos antes, e eu tinha sido sua dama de honra.)
Todos os adultos davam muitas risadas, e eu não entendia o porque. Mal sabia eu que eles sabiam que eu estava com o orgulho ferido e não queria admitir.
Hoje, passados praticamente 20 anos, vejo esse “orgulho ferido não-admitido” nos meus alunos constantemente:
Um dia na escola, estávamos com um grupo grande de crianças, era reunião de pais, e as professoras estavam na reunião, enquanto eu e as outras auxiliares ficamos com as crianças do período integral.
- Meninas, o que acha de nos dividirmos? Temos 24 crianças para 4 auxiliares. Levamos 12 na areia azul com 2 auxiliares e outras 12 para o parque com as outras 2 auxiliares. Ficamos meia hora e depois invertemos. – sugeri para as outras auxiliares.
- Boa idéia Vanessa.
Fizemos as divisões dos grupos e fui com as minhas primeiras 12 crianças para a areia azul.
- Tirando o sapato, e colocando arrumadinho do lado de fora. Quem estiver de tênis, coloca a meia dentro do sapato. – falei para o meu grupo.
- Eu não quero tirar o sapato, vou entrar assim mesmo. – disse Jorge.
- Não, você tem que tirar o sapato igual a todos, senão não entra. – respondi.
- Então, não quero ir na areia, vou no parque.
- Não, você vai na areia agora, pois o seu grupo está na areia, e se você não entrar na areia agora, você não vai no parque depois.

- Deixa, eu nem queria ir no parque e nem na areia mesmo. Eu queria mesmo era ficar sentado só olhando todo mundo brincar.

Memória Olfativa


 Giovanna Rocha tem 23 anos e sempre foi muito imaginativa. Os cheiros têm o poder de transportá-la até para os lugares mais esquecidos em sua memória.

O sol me acompanhava no caminho de volta da escola. As árvores do bosque brincavam de fazer sombras pela calçada. Era um longo caminho de pedras cor de areia... Vovó ia conversando e fazendo ginástica enquanto isso.

            No caminho, cheiro da hora da saída: pipoca do carrinho do pipoqueiro, grama cortada, árvores fresquinhas e ecaa!! Cheiro de onça do bosque!! Sim, era hora de ir embora!

            Chegando em casa, o cheiro de fome pairava pelo ar...O que será que os vizinhos faziam pra jantar? Na cozinha, minha irmã já comia sua papinha. Credo, quanta sujeira! Comia até pelas orelhas! Abriu um sorrisão quando me viu chegar!

            - Vó, mas me deu uma fome...

            No prato, minha comida não era tão saborosa quanto a que minha irmã comia, tinha certeza!

            O céu já estava lilás e um ventinho gostoso fazia cócegas em meu nariz. O cheiro de chuva e a cigarra cantando já anunciavam as nuvens escuras que vinham. E um relâmpago inicia a festa! Pronto! A chuva começava a cair mansinha no quintal...Hum!! Cheiro de terra molhada e cheiro de onça do bosque encharcada!!

            Como agora era uma cigana feiticeira, dançava feliz na chuva acompanhando as árvores que também bailavam ao som da água que desabava. Ouvia os hipopótamos conversando no bosque. Por certo, deviam estar felizes com a tempestade. Será que gostariam de vir para minha festa? Acho que só a chuva quis vir festejar comigo. Mas estava tudo bem! Tinha colocado meu vestido de cigana preferido, muitas pulseiras e até um lenço. Dancei, dancei, dancei...!!!

            - Não acredito! Mas de novo na chuva?! Você quer ficar doente?!

            Ixiii...era a vovó!

            “Vou ficar aqui escondida e quietinha na minha cabana de toco de madeira...” Pensei.

            Cheiro de madeira molhada, cheiro de encrenca armada.

Como num passe de mágica!

                                          Vera Lúcia Rocha, tem 76 anos e, durante sua infância, viveu em Campinas.


   Nunca posso esquecer o episódio que ocorreu quando eu tinha seis anos de idade.

                Estava em São Paulo quando fui assistir com minha família a um espetáculo de um famoso mágico de nome Richard. Neste dia meus primos conseguiram, por serem mais velhos que eu, participar de uma brincadeira no palco e eu saí completamente frustrada.

Qual não foi o meu espanto, quando no antigo Teatro Municipal de Campinas, após dois meses, Richard veio com o mesmo show que assisti em São Paulo. Como já conhecia a forma de poder participar da brincadeira que eles faziam no palco, entrei escondida e consegui meu objetivo.

                Vinte e cinco cadeiras foram colocadas em círculo no palco e mais ou menos cem pessoas participaram da brincadeira.  Depois da primeira rodada, ficaram três pessoas para uma cadeira. Na segunda, para cada duas pessoas, havia uma. E no final, restaram duas pessoas para uma única cadeira: eu, que não tinha idade e nem estatura para participar, e uma outra moça alta e esguia. O público aplaudia em pé fervorosamente e o mágico, não compreendendo como a minha pessoa estava no palco, continuou a brincadeira. Agora, para ser mais imparcial, virou-se de costas para as cadeiras para soar seu apito sinalizando para que a música parasse. Chegou a apitar cinco vezes, sem que nenhuma de nós ouvisse, tamanha era a torcida! Finalmente, ouvi o apito. Pronto! Sentei-me!

                O mágico me carregou no colo e o Teatro Municipal quase veio abaixo!

domingo, 9 de junho de 2013

Para que...............?

Após intenso debate sobre como seria a apresentação final do curso tornou-se consenso do grupo o uso de dois conceitos norteadores, para análise da importância das narrativas da infância como registro e reflexão a respeito do que nos constitui como sujeitos-ativos que interferem em seu meio social , que serão representados a seguir:

“O conceito proposto por  Water Benjamin no qual defende que a criança é capaz de descobrir ou criar o “novo” em  oposição ao “sempre igual”. O novo como a constante e fascinada  (re) descoberta da própria vida. Aquilo que, paradoxalmente, é também o “eterno e o imutável” (MARCHI, 2011).


O uso de cantinhos de rememoração para estímulo dos sentidos como ponto desencadeador para lembranças da infância fazendo alusão aos ateliers propostos por Freinet em sua obra Educação pelo Trabalho (FREINET, 1998).
Manjar dos Deuses

                                     Gabriela Rocha tem 19 anos. Quando pequena, era carinhosamente apelidada de "Magali".
 
 

Sim, esses foram motivos mais do que suficientes para que eu, em pleno Domingo à tarde, “pós-macarronada”, saísse da minha querida cama e fosse passear pela casa.

Ando daqui, ando de lá e, não mais que de repente, no meu lugar preferido da casa, vejo um oásis: ali, em cima do fogão, dando sopa, até com uma colher dentro, o manjar dos deuses! Meu preferido, o único capaz de acabar com a minha fome e me tirar daquele tedio que tanto me afligia: meu tão amado macarrão!

Não era necessário pensar duas vezes: peguei a panela e ali mesmo no chão da cozinha comi como se não houvesse amanhã! Uma, duas, três, quarto colheres (ou conchas, como preferirem)! Hum, a fome passou, mas estava tão gostoso…

De repente, escuto barulhos no quarto. Eram meus pais acordando. Se eu me preocupei com isso? Claro que não! A minha infância foi fortemente marcada pelo impulso de agir independentemente, sem nenhum tipo de reflexão sobre o momento.

Ouço-os caminhando pelo corredor, aproximando-se cada vez mais da cozinha e tcharam: da o de cara com a Gabriela no chão comendo feliz o macarrão!

Já estava esperando a bronca, quando minha mãe, sem conseguir parar de rir, pega a máquina e tira uma foto. Foto essa, por sinal, que se tornou motivo de milhares de contos sobre essa “tão nobre” história, que tanto tem se repetido durante esses dezesseis anos em todos os encontros de família…

Lembranças da Minha Infância

               Christiane Rocha, tem 54 anos. Nasceu em Itapetininga, mas sua avó materna morava em Campinas.

          Memória e idade são “grandezas” inversamente proporcionais, principalmente quando tratamos de situações vividas no presente, entretanto, para as ocorridas na infância essa realidade não é verdadeira, uma vez que o idoso tem lembranças muito nítidas dos momentos vividos nessa fase da vida...

          Aos poucos vou cerrando os olhos e resgatando, como num passe de mágica, doces lembranças que com certeza, habitam as profundezas da minha alma. Não sei se são verdadeiras ou “maquiadas”, mas inebriam minha mente e coração.

          De repente, vejo-me brincando num balanço feito de madeira e preso por correntes a um suporte bem resistente. Quando balança para a frente, chega bem próximo a um pé de laranja cravo e o perfume das flores da laranjeira, que são profundamente cheirosas. Ao voltar, o balanço quase toca algumas orquídeas do vovô, que vivem na sombra da mangueira. Ao redor, muitos canteiros e outras árvores, inclusive uma que dá uma frutinha amarelinha, da qual não sei o nome, e que atrai muitos passarinhos. Que delícia, poder novamente estar ali... E nesse vai e vem do balanço, fico horas, todos os dias de minhas férias. Às vezes tenho a sensação de adormecer em meio a tudo isto, mas logo vejo a vovó na janela do banheiro, avisando que está na hora de tomar banho. E assim, passei mais uma manhã. Mais tarde finjo que sou uma costureira e faço muitas bonecas e palhacinhos de retalhos. Nesta oficina,  já aprendi de tudo um pouco: costurar, bordar, fazer tricô e crochê.  No final da tarde volto ao quintal. Sempre brinco de andar num carneiro que parece de verdade, mas é feito de lã. Ele era da mamãe e tenho que ter o maior cuidado para não estragar o bichinho. Alguns dias risco uma amarelinha no chão e brinco até cansar, outros, pulo corda ou jogo 5 marias feito por mim e pela vovó.

          Nossa, o dia está acabando... Passou muito rápido. Está quase na hora do vovô chegar para o jantar. Nessa hora, sempre fico em silêncio, ouvindo tudo que o vovô e a vovó conversam, mas depois disso posso ir ao escritório para ver aqueles livros encantadores. Num deles vejo muitos pássaros com seus nomes e cores estonteantes...! Noutro, animais que nunca imaginei que existissem.

          Agora preciso ir dormir, mas antes disso a vovó vai cantar e contar muitas estorinhas para mim.

          Adormeci , mas tenho certeza que amanhã, ao acordar, poderei viver novos desafios e muitas alegrias...

            Nossas memórias, nossas vergonhas...   
 
                                         Caue Prado tem 24 anos. Nasceu em Campinas e desde os quatro anos se dedicou ao karatê.
 
               Aos onze anos de idade, na faixa marrom do karatê, estava classificado pela primeira vez para disputar o Campeonato Brasileiro, que seria realizado no Rio de Janeiro... A classificação havia sido, modestamente, heroica, pois lutei a final do Paulista com dois dedos quebrados da mão direita, fratura que conquistei jogando bola e que me renderam mais dores nos ouvidos do que na mão, ouvindo meu pai e meu Sensei ralhando sobre a irresponsabilidade que havido sido ir jogar futebol nas vésperas da final do Estadual.

                Mas lá estava eu, viajando de carro para o Rio com meu pai e meu treinador um dia antes da competição. Fomos sozinhos, pois para irmos com a Seleção Paulista seria mais caro, porém, não tínhamos o endereço do ginásio e nem reserva em hotel. Então, ficamos "dando uma volta" pela Linha Vermelha, sem saber do que se tratava. Acabamos, depois de muito andar e muitas informações desconexas, localizando o ginásio. Para mim tudo foi muito chato pois estava acostumado com a bagunça feita no ônibus quando ia a academia toda viajar para disputar campeonato e dessa vez só eu havia me classificado e, por isso, estava "sozinho".

                Às dez da noite depois da pesagem e do cadastramento saímos do ginásio e fomos procurar um lugar para passar a noite. Poucas ruas distante do ginásio encontramos o Agadir Hotel, cheio de neons e luzes brilhantes. Meu pai pensou que seria muito caro e meu treinador que estaria lotado, considerando que pela proximidade, seria a primeira opção de todos os outros atletas e acompanhantes. Ainda assim, cansados e com fome, decidiram verificar. Descobrimos que havia vagas, mas também que o Agadir Hotel era um motel e não um hotel, mas que estava "disfarçado" por estar no centro e que não poderia aceitar menores de idade. Ninguém se mostrou muito disposto a me explicar o que era um motel, ou por que meu treinador ficou irritado quando o rapaz do portão perguntou se iríamos ficar todos no mesmo quarto, após ter aceitado que passássemos a noite lá depois de meu pai ter explicado a situação.

                Achei o máximo um quarto com tantos espelhos e com controle de ar/TV e rádio acoplados em botões na parede. E ainda nos intervalos da Globo apareciam propagandas da Telemar 31, ao invés da Embratel 21. Meu pai pediu a comida, foi tomar banho e eu tive a infeliz ideia de "dar uma olhada" no que estava passando nos outros canais. Foi direto do Serginho Groisman para algo que eu nunca tinha visto, mas de alguma maneira sabia que não deveria estar vendo e mudei rapidamente com medo de que meu pai ouvisse o que eu havia visto. Quando meu pai saiu do banho, a comida chegou e eu estava deitado na cama olhando fixamente para a TV desligada. Por sorte, meu pai nunca foi muito atento a essas coisas e também não me questionou o porquê de eu não ter olhado para ele nem por um segundo enquanto jantávamos. Tomei banho e fomos dormir. Estava frio, mas hoje compreendo porque meu pai não quis ligar na recepção e pedir um cobertor.

                Acordamos bem cedo e eu estava angustiado em pensar no que poderia acontecer se alguém resolvesse ligar a TV por alguma razão. Na saída, encontramos meu treinador que comentou nunca antes ter ido a um motel sozinho e ainda hoje me sinto constrangido ao lembrar no que eu disse em seguida:

                - Você não veio sozinho. Você veio com a gente!

                Não entendi porque me ignoraram, assim como não entendi porque naquele tal motel não tinha um lugar para os hóspedes tomarem café.

                No fim, fui Campeão Brasileiro de karatê pela primeira vez, mas isso não foi a parte mais entusiasmante da minha viagem para o Rio de Janeiro.

A infância da garotinha Ewelyn


Depois de nove meses de ansiosa espera, nasce a “agraciada”  Ewelyn Mayara Vieira. Digo assim, pois ela nasceu justamente no dia de Ação de Graças, exatamente às 12 horas, e por coincidência na sala de parto estava começando a Missa em agradecimento, no radio. Os olhinhos redondos e curiosos observavam tudo ao seu redor, quando acabou de nascer... Essa menina veio trazer muita alegria para todos da família, pois era a primeira neta tanto dos avós paternos, como dos maternos e o pai não se cabia de alegria:era sempre o primeiro a entrar no quarto do hospital para vê-la. Como morávamos praticamente juntos com os avós paternos, estes tiveram uma participação muito grande de convivência na vida da menina.
Muito linda, em poucos dias estava mostrando sua simpatia com sorrisos e conquistando a todos a sua volta. Foi batizada pelos avós maternos, iniciando sua vida cristã.Quando completou cinco meses, nasceu o tio,( mais novo que ela é claro), o qual foi sempre seu companheiro de jornada. Foram se passando o tempo, e com aproximadamente nove meses, a vida nos pregou um grande susto: Ewelyn teve uma convulsão por febre, e o medo da perda foi terrível...começou a preocupação  receando que a mesma fosse  se repetir; então buscou-se tratamento,onde foi medicada e permaneceu tomando remédios por sete anos e nunca mais teve outra.Porém, nada disso interferiu na sua alegria de viver e muito mesmo em sua inteligência, sendo que a cada dia aprendia mais e com muita facilidade.Quando completou seu primeiro aninho teve uma linda festinha, onde participaram familiares e amiguinhos, se repetindo por vários outros aniversários.
Ewelyn sempre foi muito amada, cativava a todos, com sua simpatia e as gargalhadas que dava desde muito pequena. Parentes próximos e vizinhos a vinham buscar para levá-la para casa deles para alegrar o ambiente e ensinar-lhe coisas novas. Teve muitos brinquedos e roupas, pois a avó e eu confeccionávamos as mesmas e no momento era filha única.
Aos três anos de idade, começou a fazer aulas de balé, sendo que no final daquele ano, houve uma apresentação com a mostra do trabalho desenvolvido por todos os participantes, e ela devido ao cansaço dos ensaios não queria mais dançar e ficamos muito tristes porque a roupa já estava pronta e gostaríamos de vê-la dançar; mas qual não foi a surpresa que na hora da apresentação, resolveu dançar... e dançou tão perfeito que emocionou a todos! Mais ou menos nessa idade nasce o primeiro primo..
Desde pequena, sempre foi incentivada a participar de festas juninas (desde bebê já tinha roupa de caipirinha), carnaval então, como sempre gostei, eu mesma e a avó confeccionávamos as fantasias, e eu a levava em clubes. Na época não possuía veículo próprio, ia com sacrifício de ônibus circular, mas me sentia realizada em fazê-la participar.
Sempre me dediquei muito a ela, perdia um longo tempo brincando com ela, abraçando, beijando e admirando-a; tirando muitas fotos de todas as formas (era minha paixão). Aos cinco anos, ela ficou aos cuidados dos avós paternos, pois comecei a trabalhar. No começo foi difícil pois ela ficava chorando pra mim não ir e ficar com ela. Como trabalhava em escola como inspetora de alunos, sempre trazia livrinhos de historinhas para ler pra ela, e sempre que tinha passeios com alunos eu dava um jeito de levá-la também.Nessa época ela ganhou um cachorrinho chamado Billy, onde dedicava muita atenção e carinho pelo animalzinho bebê que foi crescendo junto com ela.Certa vez ficou doente por causa de uma bicicleta com cestinha na frente, e lá se vai nós comprarmos a bicicleta rosa, que foi sua companheira de aventuras por muito tempo.
Cresceu assistindo o programa da Xuxa e imaginem: ganhando discos e acessórios da mesma. Também gostava de assistir: Balão Mágico; programa da Mara Maravilha, Eliana e os Trapalhões.
Quando chegou à idade da pré- escola, sempre teve muita facilidade em se relacionar e fazer amigos. Foi a escolhida para fazer a homenagem, com a recita de uma poesia no encerramento do ano letivo e final do curso da pré-escola. Muito meiga, carinhosa e inteligente cativava os professores...
Apesar de ter convivido com conflitos familiares ela sempre foi uma criança feliz e como já disse, muito amada!

 Permaneceu filha única por oito anos, onde nasceu a irmã. Queria brincar com a irmã e ajudar a cuidar dela, mas ao mesmo tempo tinha muito ciúmes da mesma (natural para quem teve toda a atenção por um longo tempo). Quando completou 10 anos nasceu o irmão e com toda sua dedicação e meiguice ajudou a cuidar dos dois irmãos, agora sem os ciúmes, mas com muito amor e dedicação!

Maria Ap. M. Vieira - mãe da Ewelyn

Bem Alto!


- Aqui mãe!
- Ah, você quer se balançar?
Pego a criança no colo. Tem apenas 1 ano e 5 meses e já quer se pendurar na barra que antes servia de suporte para os balanços no parque da creche. Começo a lembrar. Parece que não faz tanto tempo que eu estendia um edredom no chão da sala e deixava um bebê lá deitado,  de bruços, com alguns brinquedos espalhados para incentivar os seus movimentos ao tentar buscá-los.  Parece que foi ontem que começamos a frequentar a creche , mas já faz  um ano, e quando começamos, as mamães se juntavam em verdadeiras "redes sociais" formadas por cangas, que permitiam aos bebês ficarem ao abrigo das formigas e da grama, quase sempre levada à boca.
O tempo passou muito rápido para uma mãe que trabalha o dia todo e estuda a noite. Aquele bebê que mal conseguia se virar para os lados bem depressa passou a sentar-se, a engatinhar, a andar... E agora me pede para colocá-la pendurada numa barra, com altura maior que a dos meus braços esticados:
- Aqui mãe!
- Tudo bem. Então vamos nesse aqui que é mais baixinho.
Então ergo  minha filha e ela se agarra na barra. Testando sua força, busca tirar o corpo das minhas mãos. Eu a solto mas faço uma "cadeirinha" com os braços em volta dela.
- Balança caixão, balança você, dá um tapa no bumbum...
Puft! A seguro ainda no ar, evitando a queda. Ela suspira e vibra, erquendo os bracinhos nba direção da barra mais alta:
- Esse mãe! Aqui no alto mãe!

(Escrito por Ewelyn, mãe da Laura, de 1 ano e 9 meses)

sábado, 8 de junho de 2013

Walter Benjamin


O link abaixo é de um trabalho apresentado em um congresso que teve como objetivo apresentar uma análise do ensaio "O Narrador" do filósofo alemão Walter Benjamin.  É um texto interessante para saber um pouco mais sobre a obra e para instigar o desejo de ler a produção do filósofo.

http://conferencias.ulusofona.pt/index.php/lusocom/8lusocom09/paper/viewFile/61/37

Leituras partilhadas

Sobre o texto: "Proposta pedagógica: História de vida e formação de professores", Elizeu C. de Souza. 

SOUZA, E.C.de. Proposta pedagógica: História de vida e formação de professores. IN: Histórias de vida e formação de professores. FAPERJ/Quartet: Rio de Janeiro, 2008.

 Comentários e citações interessantes:

* Esta parte inicial do livro organizado por Elizeu C. de Souza, apresenta o objetivo deste como sendo o de discutir questões teóricas sobre as histórias de vida e dimensões concernentes às práticas de formação (SOUZA, 2008, p. 3). Os trabalhos apresentados são, de acordo com o autor, centrados em histórias de vida, diários biográficos e narrativas de formação, de modo a dar relevância e enfatizar o professor aprende a partir de sua própria história. 

* A perspectiva de pesquisa denominada abordagem experiencial e utilizada no texto toma a experiência do sujeito adulto como fonte de conhecimento e de formação. 

*Citações interessantes:
"A narrativa (auto) biográfica - ou, mais especificamente, o relato de formação - oferece um terreno de implicação e compreensão dos modos como se concebe o passado, o presente e, de forma singular, as dimensões experienciais da memória de escolarização e de formação. (...) Desta forma, as implicações pessoais e as marcas construídas na trajetória individual/coletiva, expressas nos relatos escritos, revelam aprendizagens de formação e sobre a profissão." (Idem, p. 4)
"O que é a educação senão a construção socio-histórica e cotidiana das narrativas pessoal e social? O cotidiano humano é, sobremaneira, marcado pela troca de experiências, pelas narrativas que ouvimos e que falamos, pelas formas como contamos as histórias vividas." (Idem, p. 5)



Afinando a discussão


Um pouco da discussão que propusemos durante trabalho realizado na disciplina "Seminário de Educação, Cultura e Artes" (EP 814 A), da Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, que resultou nas experiências narradas e partilhadas nesse

1.     Tema: Educação Infantil (Narrativas)
2.    Palavras-chave: narrativas - culturas infantis – professores – famílias – crianças.
3.     Objetivos:
  Trabalhar com narrativas de professores, famílias e alunos sobre fatos importantes vividos na infância, atentando para os sentimentos, sensações que emergem das memórias relatadas.
  Observar como as vivências dos professores/ famílias na infância refletem no trabalho de educação que desenvolvem com as crianças na atualidade.
   Identificar aspectos/ fatos semelhantes que aparecem nas produções, tentando estabelecer certo padrão de valores, mentalidades e práticas predominantes durante as gerações, em um fluxo contínuo de geração em geração, observando-se, portanto, a formação de culturas.
   Refletir a respeito da relação existente entre as sensações despertadas pelos ambientes, pelos brinquedos, pelas texturas, pelos cheiros, entre outros, e o prazer da atividade pedagógica desenvolvida.

5.   Desafios/ problemas:
  Recolher fotos, objetos, receitas, músicas, histórias, brinquedos, objetos de transições, produções da infância, retomar tradições que sejam significativas no processo de rememorar o tempo vivido.
   Refletir sobre como as vivências da infância se fazem presentes na formação e práticas do professor/ educador e como isso acaba gerando uma cultura que é transmitida no decorrer do tempo. na interação entre indivíduos.
     Relacionar o estímulo dos sentidos com a memória do vivido e seu significado nas práticas cotidianas

6. Desejos/utopias/sonhos: Despertar nos ouvintes a recuperação de suas memórias de infância permeadas pelos estímulos dos sentidos e deste modo conduzi-los a refletir no sentido de perceber a relação destas memórias com suas vivências cotidianas.

7. Referências bibliográficas: Pretendemos usar como referências bibliográficas o livro “Histórias de vida e formação de professores”, de Elizeu Clementino de Souza e o texto “História, currículo e práticas pedagógicas: sobre memórias e narrativas”, de Maria do Carmo Martins.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Neusa Ap. de Lima (Mãe da Angela) - NARRATIVA - MINHA PEQUENA...

Neusa Ap. de Lima (Mãe da Angela)
MINHA PEQUENA...
Angela era um bebê lindo, com os olhos claros e gordinha. Era um bebê muito risonho, sorria para todos que olhavam para ela. Demorou a andar, andou com um ano e quatro meses.
Lembro-me da primeira vacina (BCG) que aquela criatura pequena teve que tomar. Chorou um choro tão sentido, que chegou a me apertar o coração. Chorei junto com ela. Depois desse dia, sequer tive coragem de furar sua orelha.
Lembro-me, também, do primeiro dia que Angela foi à escola, tinha apenas 6 (seis) anos. Ficamos na fila da entrada cerca de meia hora. Até aí, Angela estava firme para entrar. Entretanto, quando os portões se abriram e os professores pediram para deixa-la na fila, seus olhos encheram de lágrimas, como se ela dissesse:
- Mãe, não me deixe aqui sozinha.
Nesse dia, inúmeras crianças deram “show” para não ficarem sozinhas na escola, longe dos pais, mas Angela engoliu o choro e acompanhou a professora.
Naquele dia, eu voltei para o trabalho chorando de “dó” por deixa-la sozinha.
Angela não deu trabalho para largar da mamadeira. Aos 4 (quatro) anos, ela ainda mamava na mamadeira. Certo dia, ela acordou e pediu mama. Eu respondi:
- Sua mamadeira está suja, vai lavá-la que eu faço seu mama.
Ela então respondeu:
- Tem copo limpo?
Eu disse:
- Sim
Ela disse:
Então faz no copo mesmo!
Depois desse dia, nunca mais ela mamou na mamadeira.
Angela demorou a aprender a ler. Não tinha “Cristo” que a fizesse aprender. Tentava de tudo para fazê-la aprender. Mas ela parecia que tinha vergonha por não conseguir ler. Eu ficava com dó e parava de atormentá-la com o “Be-a-ba”. Foi aprender a ler já na segunda série. Quando aprendeu, finalmente, lia tudo que via pela frente. Chegava a nos incomodar, lia placas/outdoor/banners, etc. Até hoje ela lê tudo que vê e sempre está com um livro nas mãos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Chupeta



Ela não aparece em muitas fotos. Quando a vejo, encontro-a sempre pendurada em minhas roupas ou próxima ao lugar onde estou. É dela que me lembro. O gosto de borracha babada, mordida, desgastada.

Durante a tarde, na pré-escola a professora diz que não posso usá-la sempre. Entre um momento e outro, corro até minha bolsa, coloco-a um pouco na boca e guardo. Só quando estou triste e chorando muito é que a professora deixa que eu fique com ela.

Depois de muita conversa, acordos e desacordos, naquela tarde eu decidi: "Não vou mais usar chupeta!". Contei pra professora. Festa!! Minha mãe chegou. A professora lhe contou. Festa!! Em casa, joguei fora a principal e as reservas. Mesmo fraquejando, não voltei a usá-la.

O tempo passou. Adquiri outras manias. Esqueci as chupetas e suas cores. Mas, do gosto, do conforto, da segurança que esse gosto tinha... Lembro até hoje. Até tentei chupar uma chupeta de novo, tempos depois. Pedi tanto que minha mãe cedeu. Me comprou uma. Mas aquele não era o gosto da minha chupeta... Não tinha mais aquele gosto de borracha... babada, mordida, desgastada.